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Estudo revela como enzima central do ácido hialurônico distingue seus dois combustíveis moleculares
O estudo utilizou microscopia crioeletrônica de alta resolução para revelar, em detalhes estruturais inéditos, como a enzima hialuronano sintase do vírus da Chlorella (CvHAS) reconhece e seleciona seus substratos.
Por Laercio Damasceno - 27/02/2026


Hialuronidase


Um novo estudo publicado, nesta semana, na revista eLife, lança luz sobre um enigma bioquímico que há décadas intriga pesquisadores: como uma única enzima consegue alternar, com precisão milimétrica, dois açúcares diferentes para construir o ácido hialurônico — molécula essencial para articulações, cicatrização e desenvolvimento embrionário.

A pesquisa, conduzida por cientistas da University of Virginia School of Medicine e do Howard Hughes Medical Institute, utilizou microscopia crioeletrônica de alta resolução para revelar, em detalhes estruturais inéditos, como a enzima hialuronano sintase do vírus da Chlorella (CvHAS) reconhece e seleciona seus substratos.

“O grande desafio era entender como um único sítio ativo consegue discriminar entre dois açúcares ativados por UDP e adicioná-los de forma alternada, milhares de vezes”, disse Jochen Zimmer, autor sênior do estudo e pesquisador da Universidade da Virgínia.

Uma engrenagem molecular de alta precisão

O ácido hialurônico é formado pela repetição alternada de dois blocos: N-acetilglucosamina (GlcNAc) e ácido glicurônico (GlcA). A enzima estudada pertence à chamada classe 1-NR de hialuronano sintases, que não apenas polimerizam a cadeia como também a secretam através da membrana celular.

Usando crio-EM de partícula única, a equipe identificou dois estados distintos de ligação do UDP-GlcA ao sítio ativo da enzima: um estado “de revisão” (proofreading) e outro “inserido”, pronto para a transferência do açúcar. No primeiro, o substrato é parcialmente acomodado e estabilizado por resíduos carregados positivamente, que reconhecem especificamente o grupo carboxilato do GlcA. No segundo, o açúcar é completamente inserido na cavidade catalítica, alinhado para a reação.

“Esse estado intermediário funciona como um ponto de checagem”, explicou o primeiro autor Zachery Stephens. “Ele ajuda a enzima a distinguir o UDP-GlcA de moléculas semelhantes, como o UDP-glicose, mais abundante na célula.”

Afinidade modulada pelo “primer”

Experimentos de calorimetria mostraram que a afinidade da enzima pelo UDP-GlcA aumenta na presença de um “primer” — uma molécula inicial de GlcNAc que serve como aceitora para a reação. O valor de dissociação (Kd) caiu de 69 ?M para 24 ?M quando o primer estava presente.

Sem esse iniciador, a enzima praticamente não hidrolisa UDP-GlcA. Já o UDP-GlcNAc, mais abundante, pode ser hidrolisado mesmo na ausência de aceitador, iniciando a síntese da cadeia.

“Isso reforça a ideia de que a iniciação da síntese ocorre via autoformação de um primer de GlcNAc”, afirmou Zimmer. “O GlcA, por si só, não consegue dar partida ao processo.”

Um detergente revela vulnerabilidade — e versatilidade

Um achado inesperado surgiu quando os pesquisadores observaram que o detergente dodecil maltosídeo (DDM), usado na purificação da proteína, ocupava o sítio aceitador da enzima, bloqueando sua atividade.

A estrutura revelou que a porção maltosídica do DDM mimetiza a posição do dissacarídeo natural do ácido hialurônico. Isso levou os cientistas a testar se outros dissacarídeos poderiam servir como aceitadores alternativos.

O resultado: celobiose e quitobiose, em altas concentrações, foram capazes de receber a adição de GlcA, gerando produtos detectáveis por cromatografia em camada fina e autoradiografia com 14C.

“Isso demonstra uma surpreendente plasticidade do sítio ativo”, disse Stephens. “Embora a especificidade seja alta, há margem para explorar reações não canônicas.”

Implicações biomédicas e biotecnológicas

O ácido hialurônico é amplamente utilizado em terapias articulares, preenchimentos dérmicos e engenharia de tecidos. Entender os mecanismos finos de sua síntese pode abrir caminho para otimizar sua produção industrial e projetar enzimas capazes de gerar polímeros modificados.

Além disso, como a limitação de UDP-GlcA pode restringir a síntese do polímero em condições fisiológicas, a compreensão dos mecanismos de reconhecimento pode ajudar no desenvolvimento de estratégias metabólicas para aumentar sua produção.

“Estamos começando a entender como essa máquina molecular mantém a fidelidade da síntese ao longo de mais de 10 mil unidades repetidas”, afirmou Zimmer. “Esse tipo de controle é fundamental para a integridade estrutural da matriz extracelular.”

O estudo fornece, assim, um modelo mecanístico robusto para a seletividade dual da hialuronano sintase — um avanço que ecoa além da glicobiologia, iluminando princípios gerais de como enzimas processivas equilibram precisão e eficiência em processos repetitivos de longa duração.


Referência
Zachery Stephens, Júlia Karasinska, Jochen Zimmer 2025. Informações sobre a ligação e utilização do substrato pela hialuronano sintase - eLife 14 : RP109624. https://doi.org/ 10.7554/eLife.109624.2

 

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